O LEGADO DE BONFIM – VI

setembro 6th, 2010 por Elson Gonçalves de Oliveira No comments »

As estações ferroviárias do território de Bonfim

Procedente da cidade de Araguari, no Estado de Minas Gerais, a Estrada de Ferro Goiás, obedecendo ao entusiasmo da construção de seu primeiro trecho, chegou à ponte do rio Paranaíba, na divisa com o Estado de Goiás, no ano de 1911. A partir daí a demora foi paulatinamente sentida até a sua chegada a Goiânia, capital do Estado de Goiás, no ano de 1950. E alguns anos mais tarde a linha foi prolongada em dois quilômetros, até Campinas de Goiás. Aí parou.

Em terras goianas, o trecho inicial foi construído com maior rapidez, tendo em vista que três anos após a sua chegada ao rio Paranaíba, foi inaugurada a estação de Roncador, no município de Pires do Rio, em 15 de novembro de 1914. Daí por diante a lentidão acabou instaurada, tudo por conta da escassez de verba, conforme era informado na época.

A estação de Caraíba, inaugurada em 01 de novembro de 1923, foi a primeira construída em território bonfinense. As estações de Ponte Funda e de Vianópolis, esta com o nome de estação Tavares, foram inauguradas no mesmo dia, na data de 15 de setembro de 1924. Em 3 de maio de 1930 inaugurou-se a estação de Bonfim, com o nome de estação Caturama. Mais tarde a denominação foi alterada para Silvânia. No ano seguinte, em 13 de maio de 1931, inaugurou-se a estação de Leopoldo de Bulhões. E em 7 de setembro de 1950 foi a inauguração da estação de Bonfinópolis, fechando a seqüência das estações edificadas nas terras de Bonfim.

As estações bonfinenses têm hoje destinação diversa do fim proposto ao tempo de sua construção. A de Caraíba tem uso social; a de Ponte Funda encontra-se em ruínas; a de Vianópolis abriga o Banco do Povo e a Agrodefesa, órgãos do Governo do Estado em convênio com a Prefeitura local. As de Silvânia e de Bonfim servem de moradia a populares, e a de Bonfinópolis está abandonada.

Em entrevista à revista O Cruzeiro, datada de 27 de dezembro de 1930, contou Elizabeth Steen, antropologista da Universidade da Califórnia, Estados Unidos da América, que veio ao Brasil para passar cerca de um ano estudando in loco os indígenas de Goiás e de Mato Grosso. Disse ela que chegou ao país pelo Rio de Janeiro e de lá foi para São Paulo. Ali tomou o trem, certamente pela Mogiana, até a estação de Vianópolis, em Goiás. De lá, “em auto-caminhão, por estradas difíceis de percorrer, foi à capital do Estado”, à época, Goiás Velho, e depois “às margens do Araguaia, para descer o rio em batelão, e semanas depois estava na Ilha do Bananal, no Posto de Santa Isabel, em plena região dos índios carajás”.

Estação Caturama

Concluída a Estação Tavares, em 1924, os trabalhos de construção da estrada de ferro deveriam continuar avançando Goiás adentro. A próxima estação a ser inaugurada seria a de Bonfim. Mas, por questões financeiras, os serviços ficaram paralisados quase cinco anos, fato que beneficiou sobremaneira a povoação de Vianópolis, que permaneceu durante todo esse tempo na privilegiada condição de ponta de linha.

Se para Vianópolis a construção da estrada de ferro foi de fundamental importância, a ponto de ter sido esse fato indiscutivelmente o responsável pela sua origem e seu desenvolvimento até atingir a autonomia político-administrativa, enfim, por sua existência como cidade, para Bonfim nem tanto. Aliás, a notícia que se tem é que os governantes de Bonfim, à época, não permitiram que a estrada passasse pelas proximidades da urbe, sob a alegação de que poderia prejudicar o sossego dos pacíficos moradores frente à possibilidade da chegada de aventureiros aproveitadores, mal intencionados e criminosos. Isso fez com que o planejamento do curso da ferrovia sofresse consideráveis alterações.

O certo é que a estação Caturama acabou sendo construída em local distante alguns quilômetros da cidade de Bonfim, dificultando o acesso do usuário, tanto do interessado no transporte de passageiro quanto do de carga.

E no dia 3 de maio de 1930, presente grande massa popular e sob o calor do entusiasmo disseminado, música, fogos e discursos acalorados, foi inaugurada a estação Caturama, localizada no alto do espigão, a 5 (cinco) quilômetros da cidade de Bonfim.

Foram cinco longos anos de espera, intercalados de sucessivas paralisações – conseqüentes da falta de verba –, desde o término da estação Tavares. Enfim, o novo e moderno meio de transporte estava à disposição dos passageiros e dos produtores, para se locomoverem livremente e para transportarem os produtos geradores de riquezas.

Registre-se também que quando chegou o contingente para implantar a estação Tavares, Bonfim já existia como cidade altaneira e progressista há mais de século. Sua origem fora outra: a exploração do ouro; sua fonte alternativa de sobrevida, após o fechamento das minas, já estava assentada na pecuária, na agricultura e no comércio. E juntamente com o transporte ferroviário chegava o transporte rodoviário, com a inauguração da rodovia Roncador-Campo Formoso-Bonfim, inaugurada em 28 de fevereiro de 1920, como meios concorrentes para o escoamento dos produtos produzidos no município.

Estação Leopoldo de Bulhões

O Dr. Leopoldo de Bulhões era homem de grande prestígio na política nacional, tendo inclusive ocupado o cargo de Ministro da Fazenda. Graças à sua influência, o novo traçado que vinha retardar a chegada dos trilhos da ferrovia ao solo goiano foi mudado para que fosse construído o ramal de Araguari a Catalão, permitindo que a Estrada de Ferro chegasse até nossa região.

A expansão territorial da ferrovia na jurisdição bonfinense contabilizava os seguintes dados como grande feito: em 1924 foi inaugurada a estação Tavares, em Vianópolis. Em 1930 foi a vez da inauguração da estação Caturama, perto de Bonfim. E os trabalhos prosseguiam. Em março de 1931 já estava aberto o tráfego entre Bonfim e Pindaibinha. E em 13 de maio do mesmo ano a estação foi inaugurada, recebendo o nome de estação Leopoldo de Bulhões, em homenagem à memória do ilustre estadista goiano José Leopoldo de Bulhões Jardim, a quem o Estado deve a construção da Estrada de Ferro Goiás.

A estação foi inaugurada com festa, tendo o feito sido considerado como o maior acontecimento social da época. A partir de sua inauguração a estação ferroviária tornou-se o melhor e o mais freqüentado local de lazer da população. As famílias se dirigiam para lá nos horários de chegada e partida das composições ferroviárias. Era a hora de recepcionar os visitantes ou dar adeus àqueles que partiam. Entrementes, esse comportamento era observado em toda a população que se formava em função da ferrovia. Em Vianópolis, por exemplo, a correria desenfreada rumo à estação, nos horários do trem passageiro, traz lembranças inesquecíveis e constitui parte nobre do folclore da minha juventude.

Estação de Bonfinópolis

Se a estação Leopoldo de Bulhões foi construída em curto espaço de tempo (13.05.1931) desde a inauguração da estação Caturama (03.05.1930), apenas um ano depois, a de Bonfinópolis levou muito mais tempo. Foram 19 anos de expectativa, de pleitos infrutíferos e de negociações frustrantes junto ao Governo Federal. Finalmente, na data de 07 de setembro de 1950 a estação foi inaugurada.

Notícias da época

01-06-1920 – Foi concluída a rodovia Roncador-Anápolis. A Empresa Auto-viação Roncador a Anápolis, de que é concessionário o coronel Pio José da Silva, de Campo Formoso, tendo firmado contrato em 23 de novembro de 1919, com prazo de 2 anos, para a construção da referida estrada, e conseguindo acelerar convenientemente os serviços, inaugurou, em 28 de fevereiro de 1920, o trecho ligando a Estação de Roncador, da Estrada de Ferro Goyaz, às cidades de Campo Formoso e Bonfim, concluindo agora o restante da linha traçada (A Informação Goyana, junho-1920).

02-02-1927 – Foi inaugurado festivamente o serviço de luz elétrica nas cidades de Bonfim e Vianópolis. Por essa ocasião o Cel. Felismino Viana, proprietário da usina, a mais possante do Estado, recebeu telegrama de congraçamento enviado pelo Bispo D. Manoel Gomes de Oliveira (A I. Goyana, fevereiro-1927).

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Fontes:

ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS DO BRASIL. Internet. Site: www.estacoesferroviarias.com.br/efgoiaz. Páginas elaboradas por Ralph Mennucci Giesbrecht.

OLIVEIRA, Elson Gonçalves. História de Vianópolis. Goiânia: Elege-Publicidade e Editora Ltda., 2000.

REVISTA A Informação Goyana. Rio de Janeiro: edições de junho-1920 e fevereiro-1927.

Bullying e Cyberbullying. Como combater?

setembro 6th, 2010 por Elson Gonçalves de Oliveira No comments »

A prática do bullying infelizmente é uma realidade cada vez mais crescente, especialmente em ambiente escolar, incomodando educadores e chefes de família em praticamente todas as localidades. Diariamente alunos são vítimas, no mundo inteiro, de certo tipo de violência que vem camuflada em forma de “brincadeira”, às vezes até com aparência inofensiva, mas que pode gerar consequências desastrosas na vida da criança e do adolescente, provocando traumas irreparáveis.

É comum presenciar no ambiente escolar um aluno “zoando” o outro com apelidos pejorativos, risadinhas irônicas, empurrões, tapas, fofocas, mentiras etc. Outra prática é “gelar” o(a) colega, excluindo-o(a) do relacionamento costumeiro do grupo. Outra ainda é esbofetear ou provocar a queda do(a) colega, principalmente em local onde a pessoa possa se sentir humilhada e derrotada, como o caso do adolescente tímido e fraco fisicamente que todos os dias, ao passar perto de determinados colegas, no pátio, na hora do recreio, ou na entrada e saída da escola, recebe um tapa na cabeça ou sofre uma queda em razão de alguém colocar o pé propositalmente para que tropece, de forma inexplicável. Esse tipo de comportamento, considerado normal por muitos pais, alunos e até professores, está longe de ser inocente. Trata-se de uma prática tão comum entre crianças e adolescentes que recebe até um nome especial: bullying. O termo vem do inglês e designa agressões reiteradas entre estudantes. Traduzido literalmente, seria algo como intimidação. Em outras palavras, pode-se dizer que quem sofre com o bullying é aquele(a) aluno(a) perseguido)a), humilhado(a), intimidado(a). E as vítimas do bullying, por medo ou vergonha, sofrem em silêncio, sem exteriorizar nenhuma reação.

Bullying, assim, é constituído pela prática de atos provocativos e intimidatórios, intencionais, reiterados e injustificados, direcionados a alguém do próprio convívio social. Desta forma, embora o bullying seja um ato de violência, tem-se que nem toda violência é considerada bullying. O ato isolado não o configura. Somente a prática reiterada – vale dizer: não isolada – de intimidação, provocação, humilhação, escárnio o constitui. Na internet, essa prática agressiva é conhecida como cyberbullying e se caracteriza quando sites da web, como Orkut e Twitter, são utilizados para denegrir, depreciar, hostilizar, incitar a violência e adulterar fotos e dados pessoais como forma de constrangimento psicossocial. Portanto, não se trata de brincadeiras ou desentendimentos corriqueiros e ocasionais.

Especialistas revelam que esse fenômeno, que acontece no mundo todo, poderá provocar nas vítimas, notadamente nas crianças e adolescentes, distúrbios os mais diversificados ao seu desenvolvimento psíquico, como queda da autoestima, depressão e, em certos casos, até suicídio ou outras tragédias, como lesão corporal ou mesmo homicídio. E os autores do bullying podem adotar comportamentos de risco, de prática de atos infracionais ou criminosos e acabarem tornando-se adultos violentos, sujeitos a responder na justiça pelos seus atos ilícitos e a compor danos morais em favor de suas vítimas.

Entendida em sua forma mais ampla, essa prática agressiva denominada bullying atinge a convivência familiar e as relações com os amigos, ambiente de trabalho ou qualquer grupo de que faz parte o indivíduo. No seio da família, infelizmente, os idosos são as principais vítimas.

Como combater a prática ostensiva do bullying e cyberbullying? Primeiro, conscientizar-se de que não se trata de mera brincadeira, de atos inofensivos e sem importância próprios das crianças ou adolescentes, e deixar que seus autores ajam livremente, sem repressão alguma. Segundo, não se pode permitir que tal malefício se propague, sob pena de comprometer o ambiente escolar. Se a escola não se acha preparada para o combate, que então diligencie no sentido de qualificar os seus membros o quanto antes, pois tanto a educação quanto a segurança constituem direitos do cidadão e deveres do Estado. Terceiro, é imprescindível que a família e a escola se empenhem em mostrar às crianças e aos adolescentes a necessidade da prática de outros valores, como o respeito ao semelhante, a amizade, o amor recíproco, o relacionamento pacífico entre as pessoas e o amor de Deus para cada um de seus filhos. Talvez esteja aqui a chave para a solução de uma prática tão abusiva e tão desrespeitosa para com o ser humano.

Os ensinamentos de Jesus Cristo são direcionados para rumo oposto à prática do bullying ou cyberbullying. Suas palavras são de justiça, amor, perdão, misericórdia… E o seu reino, que não é deste mundo, começa aqui: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra; os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia; os puros de coração, porque verão a Deus; os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus; os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus!” (Mt 5,5-10).

Palavra de Vida-Setembro/2010

setembro 6th, 2010 por Elson Gonçalves de Oliveira No comments »

“Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes” (Mt 18, 22)

Com essas palavras, Jesus e responde a Pedro que, depois de ter ouvido coisas maravilhosas pronunciadas pela boca do Mestre, lhe fez esta pergunta: «Senhor, quantas vezes devo perdoar o meu irmão, se pecar contra mim? Até sete vezes?». E Jesus responde: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes».
Pedro, sob a influência da pregação do Mestre, provavelmente tinha pensado – bom e generoso como era – em se lançar na sua nova linha, fazendo algo  excepcional: chegar a perdoar até sete vezes. Mas respondendo «até setenta vezes sete vezes», Jesus afirma que, para Ele, o perdão deve ser ilimitado: é preciso perdoar sempre.

“Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes”.

Essa frase relembra o cântico bíblico de Lamec, um descendente de Adão: «Sete vezes Caim será vingado, mas Lamec, setenta e sete vezes» . Começa assim a difusão do ódio no relacionamento entre os homens do mundo inteiro, avolumando-se como um rio na cheia.
Jesus contrapõe a essa difusão do mal o perdão sem limites, incondicional, capaz de romper a espiral da violência.
O perdão é a única solução capaz de conter a desordem e abrir, para a humanidade, um futuro que não seja a autodestruição.

“Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes”.

Perdoar. Perdoar sempre. O perdão não é esquecimento, que muitas vezes significa não querer encarar a realidade. O perdão não é fraqueza, que significa não considerar uma injustiça por medo do mais forte que a cometeu. O perdão não consiste em achar sem importância aquilo que é grave ou como um bem aquilo que é mal.
O perdão não é indiferença. O perdão é um ato de vontade e de lucidez, portanto de liberdade, que consiste em acolher o irmão e a irmã do jeito que eles são, apesar do mal que nos possam ter causado, da mesma forma como Deus acolhe a nós pecadores, apesar dos nossos defeitos. O perdão consiste em não responder à ofensa com outra ofensa, mas em fazer aquilo que diz Paulo: «Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem» .
O perdão consiste em você dar a quem o prejudica a possibilidade de estabelecer um novo relacionamento com você; é, portanto, uma nova chance para ele e para você de recomeçar a vida, de ter um futuro no qual o mal não tenha a última palavra.

“Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes”.

Como faremos, então, para viver esta Palavra?
Ela é uma resposta de Jesus a Pedro, que lhe perguntou: «Quantas vezes terei que perdoar o meu irmão?»
Ao dar esta resposta, Jesus pensava, principalmente, no relacionamento entre cristãos, entre membros da mesma comunidade.
Por isso, é antes de tudo com os outros irmãos e irmãs na fé que você deve agir assim: na família, no trabalho, na escola ou na comunidade à qual pertencemos.
Sabemos como muitas vezes queremos retribuir a ofensa sofrida com um ato ou uma palavra à altura.
Sabemos também que, pelas diferenças de temperamento, por nervosismo ou por outras causas, a falta de amor é frequente entre pessoas que vivem juntas. Pois bem, é preciso lembrar-se de que só uma atitude sempre renovada de perdão pode manter a paz e a unidade entre os irmãos.
Teremos sempre a tendência de pensar nos defeitos das irmãs e dos irmãos, de lembrar o seu passado, de pretender que sejam diferentes… É preciso adquirir o hábito de vê-los com olhos novos, ou melhor, de vê-los novos, aceitando-os sempre, logo e totalmente, mesmo quando não se arrependem.
Você pode pensar: «Mas é difícil» Não há dúvida. Mas justamente aqui está a beleza do cristianismo. Não é por acaso que somos seguidores de Cristo que, morrendo na cruz, pediu perdão ao Pai por aqueles que o matavam, e ressuscitou.
Coragem. Comecemos uma vida desse tipo, que nos garante uma paz jamais experimentada e uma alegria a ser descoberta».

Chiara Lubich

RELACIONAMENTO FAMILIAR

julho 14th, 2010 por Elson Gonçalves de Oliveira No comments »

Inegavelmente, o nosso dia a dia é tomado por movimentações frenéticas e incessantes, tensões incontroláveis e preocupações de toda ordem. É a luta sem trégua pela sobrevivência. Sair cedo para o trabalho e regressar quase noite. Dia após dia. Dormir bem à noite para levantar no outro dia com disposição para a atividade rotineira. Estresse facilmente perceptível no final da jornada de trabalho. É a vida em sua versão mais natural. Às vezes nem damos conta disso.

Esse frenesi a que a vida moderna nos condiciona às vezes nos faz esquecer que somos membros de uma família, que temos pessoas queridas que nos esperam, que temos filhos que nos abraçam e nos dão afeto, que temos amigos que festejam conosco o nosso sucesso, enfim, que somos seres humanos. Repletos de imperfeições, de sonhos, de desejos, de más inclinações, mas feitos à imagem e semelhança do Criador.

Quando chegamos a nossa casa, muitas vezes esquecemos de bater a poeira dos sapatos antes de entrar. E levamos para dentro do nosso lar intensa carga de aflições, de contrariedades e de mau humor. E somos os primeiros a disseminar o desânimo e a desesperança entre os nossos entes queridos. A paz até então reinante no ambiente familiar começa a ceder lugar a discussões infundadas, a incompreensões indesejadas e a discórdias incontornáveis.

Nada disso aconteceria se os nossos atos se revestissem de uma dose mais acentuada de boas maneiras e de equilíbrio na tomada de atitudes. Não seria tão difícil formar o hábito de viver o momento presente, deixando que cada acontecimento tenha o seu instante certo para ser vivido. Isso poderia favorecer a redescoberta e o restabelecimento de valores elementares, mas, essenciais do relacionamento familiar, que ficaram esquecidos em algum compartimento da nossa mente informatizada.

Um beijo na esposa ao sair para o trabalho, outro ao regressar; uma palavra de carinho ao filho que se desmancha de orgulho diante das atitudes do pai-herói; um sorriso nos lábios e as mãos acenando, num gesto meigo e numa saudável demonstração de afeto; braços abertos para acolher o pequeno ser que vem correndo em disparada, em busca do abraço paternal; a atenção voltada para a filha que, feliz e irradiante, manifesta o desejo de proteção divina ao pai: “Vai com Deus, papai!”. São valores incomensuráveis, que jamais poderão ser olvidados. São conquistas que por si só se encarregam de garantir um ambiente propício ao aprendizado do amor.

Há ainda as palavras mágicas que também têm a força de sedimentar qualquer relação humana, como por exemplo: “Me desculpe!”, “Me perdoe!”, “Não era bem isso que eu queria dizer!”, “Me dá licença!”… Não custa muito dirigir-se à esposa com palavras de candura: “Você está linda!”, “Eu te amo!”, “Feliz aniversário!”, “São pra você essas flores!”… Ao chegar de viagem: “Estava com saudades!”, “Foram dias longos, intermináveis!”… Frases de efeito? É possível! Contudo, não ditas aleatoriamente, mas utilizadas a serviço de um coração que ama.

A palavra, se bem dita, é sempre de fundamental importância para qualquer tipo de relacionamento humano. Colocada com prudência, de maneira educada e respeitosa, gera paz, contentamento e bem-estar, além de ser facilmente assimilada. Se mal dita, dirigida de forma deselegante, desrespeitosa e ríspida, pode provocar uma tempestade no ambiente em que se dá o relacionamento, porque reflete o mal que se acha encalacrado no coração de quem a profere, sugerindo mil e um questionamentos e provocando impasse e desarmonia.

Não diferentes são os gestos e as expressões externas com os quais nos comunicamos com as pessoas. Através deles transmitimos aquilo que passa em nossa alma, em nossa mente e em nosso coração. Tanto as manifestações que refletem o bem quanto os sentimentos que traduzem o mal. Um sorriso pode representar ironia ou falsidade, como também satisfação ou delicadeza. Um olhar pode traduzir desprezo ou sinceridade, como também ódio ou meiguice. Lágrimas podem significar dor ou sofrimento, como também emoção ou até mesmo alegria. Com as mãos a pessoa pode praticar atos obscenos, como também benzer-se, louvar e glorificar o Pai.

É num ambiente de paz e de concórdia que se exercitam e se aprendem com mais facilidade as lições do amor: amor fraternal, amor conjugal, amor paterno-maternal, amor filial. É nesse mesmo clima que se constroem o entendimento e a boa convivência do casal, que se formam e se educam os filhos. Enfim, nesse modelo de família é mais fácil o ser humano alcançar a tão sonhada felicidade. A frase é antiga e não é nossa: “Ninguém ama aquilo que não conhece”.

Não é difícil perceber que tudo depende excepcionalmente de cada um de nós. O primeiro passo deve ser nosso, assim como o primeiro sorriso, o primeiro gesto de bondade, o primeiro olhar amigo e cativante, a primeira manifestação de amizade, a primeira palavra de carinho, o primeiro ato de amor, o primeiro pedido de desculpas. E acima de tudo, o primeiro a compreender e o primeiro a perdoar. Fácil? No início certamente não, mas a prática é que forma o hábito. E quando os frutos positivos dessa aventura – saudável aventura – começarem a aparecer, a satisfação da alma será indício forte de que vale a pena.

Palavra de vida- julho/2010

julho 2nd, 2010 por Elson Gonçalves de Oliveira No comments »

O Reino do Céu é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Tendo encontrado uma de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola» (Mt 13, 45-46).

Nesta breve parábola, Jesus consegue prender a atenção daqueles que o estavam a ouvir. Todos eles sabiam bem o valor das pérolas que, juntamente com o ouro, eram aquilo que havia de mais precioso, naquela época. Além disso, as Escrituras falavam da Sabedoria, isto é, do conhecimento de Deus, como de uma coisa que não se pode comparar «nem sequer às pedras preciosas»1.
Mas, na parábola, vem em relevo o acontecimento excepcional, surpreendente e inesperado que foi aquele negociante ter descoberto, talvez num bazar, uma pérola que aos seus olhos experientes tinha um valor enorme. Com ela poderia, depois, obter um óptimo lucro! Foi por isso que, depois de fazer os seus cálculos, decidiu que valia a pena vender tudo o que possuía para comprar a pérola. E quem é que, no seu lugar, não teria feito o mesmo?
Eis então o significado profundo da parábola: o encontro com Jesus, ou seja, com o Reino de Deus no meio de nós – e aí está a pérola! –, é aquela ocasião única que temos mesmo que aproveitar, empregando inteiramente todas as nossas energias e aquilo que possuímos.

«O Reino do Céu é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Tendo encontrado uma de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola».

Não era a primeira vez que os discípulos se sentiam postos diante de uma exigência radical, isto é, diante daquele tudo que é preciso deixar para seguir Jesus: os bens mais preciosos, os afectos familiares, a segurança económica, as garantias para o futuro.
Mas, a Sua, não é uma exigência sem motivo ou absurda.
Por um “tudo” que se perde, existe um “tudo” que se encontra, infinitamente mais precioso. Todas as vezes que Jesus pede qualquer coisa, também promete dar muito, muito mais, numa medida superabundante. Assim, com esta parábola, garante-nos que vamos ganhar um tesouro que nos tornará ricos para sempre.
E, se pode parecer um erro deixar o certo pelo incerto, um bem seguro por um bem apenas prometido, pensemos no negociante da parábola: ele sabia que aquela pérola era muito preciosa e aguardou, confiante, o lucro que iria obter quando a vendesse. Da mesma maneira, quem quer seguir Jesus, sabe e vê, com os olhos da fé, qual é a enorme vantagem que vai ter ao partilhar com Ele a herança do Reino, por ter deixado tudo, ao menos espiritualmente.
Deus oferece a todas as pessoas, durante a vida, uma ocasião destas, para que a saibam aproveitar.

«O Reino do Céu é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Tendo encontrado uma de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola».

É um convite concreto a pôr de lado todos aqueles ídolos que podem ocupar o lugar de Deus no nosso coração: a carreira, o casamento, os estudos, uma linda casa, a profissão, o desporto, o lazer.  É um convite para pôr Deus em primeiro lugar, no centro de cada nosso pensamento, de cada nosso afecto. Porque, na nossa vida, tudo deve convergir para Ele e tudo deve provir d’Ele.
Se assim fizermos, se procurarmos o Reino, segundo a promessa evangélica, tudo o resto nos será dado por acréscimo2. Deixando tudo pelo Reino de Deus, recebemos cem vezes mais em casas, irmãos, irmãs, pais e mães3. Porque o Evangelho tem uma nítida dimensão humana: Jesus é Homem-Deus e, juntamente com o alimento espiritual, dá-nos o pão, a casa, a roupa, a família. Temos, talvez, que aprender com as “crianças” a confiar mais na Providência do Pai, que não deixa faltar nada a quem dá, por amor, todo aquele pouco que possui.
Já há uns meses que, no Congo, um grupo de jovens fazia postais artísticos com a casca da banana, que depois eram vendidos na Alemanha. No princípio ficavam com tudo o que ganhavam (alguns mantinham a família com esse dinheiro). Depois decidiram pôr em comum 50% e, deste modo, 35 jovens desempregados receberam uma ajuda.
Mas Deus não se deixou vencer em generosidade: dois desses rapazes deram um tal testemunho na loja onde trabalhavam, que diversos comerciantes, em busca de pessoal, dirigiram-se àquela loja. E assim, onze jovens encontraram um emprego fixo.

Chiara Lubich

A madrasta

julho 2nd, 2010 por Elson Gonçalves de Oliveira No comments »

Havia um viúvo com três filhas. Um dia resolveu casar-se de novo, e casou com uma mulher muito má, que tinha ódio às meninas. Fazia-as trabalhar como verdadeiras escravas.No quintal havia uma grande figueira. Quando chegou o tempo dos figos, a madrasta botou as meninas lá tomando conta para que os passarinhos não bicassem os figos.  As três coitadinhas passavam debaixo da figueira o dia todo, dizendo aos sanhaços que se aproximavam:

Xô, xô, passarinho, aí não toques o biquinho. Vai-te embora pro teu ninho…

Mas mesmo assim aparecia um ou outro figo bicado e a madrasta batia nas três.

Um dia em que o homem fez uma longa viagem a madrasta aproveitou-se para mandar enterrar vivas as coitadinhas. Quando o homem voltou e indagou das filhas, a peste respondeu que haviam caído doentes e morrido, apesar de todos os remédios. O pobre pai ficou muito triste.

Mas aconteceu que no lugar onde as meninas tinham sido enterradas brotou logo um lindo capinzal — dos cabelos delas, e quando batia o vento o capinzal murmurava:

Xô, xô, passarinho, aí não toques o biquinho.

Vai-te embora pro teu ninho…

Um negro, tratador dos animais da casa, andando a cortar capim, ouviu aqueles murmúrios e teve medo de mexer nas pontinhas. Foi contar o caso ao patrão. O patrão não quis acreditar, e disse-lhe que cortasse o capim com murmúrio e tudo. O negro obedeceu. Mas quando levantou a foice, ouviu novamente a misteriosa voz, que dizia:

Capineiro de meu pai, não me cortes os cabelos;

minha mãe me penteava, minha madrasta me enterrou

pelo figo da figueira, que o passarinho bicou.

O negro foi correndo contar o caso ao patrão, com um grande susto na cara. E tanto fez que o obrigou a chegar até lá. E então o pai das meninas ouviu o lamento das filhas enterradas. Mandou buscar uma enxada e cavar, e retirou-as da terra, vivas por milagre de Nossa Senhora, que era madrinha das três.

Quando voltaram para casa, na maior alegria deram com a madrasta estrebuchando. Um castigo do céu tinha caído sobre a peste.

Bom — disse Emília — esta história já está bem mais aceitável. Tem sua originalidade e explica tudo. Desde que houve milagre, era natural que as enterradinhas vivas não morressem. Milagres não se discutem.

— E há ainda um traço delicado — disse dona Benta — esse das cabeleiras das meninas que viraram capinzal murmurejante ao vento. Aparece também a figura da madrasta, que é muito comum nas histórias populares. Toda madrasta tem que ser má. O povo não admite a possibilidade de madrasta boa.

— E não há — disse Narizinho. — As que eu conheço, como a madrasta da Quinota e a da Maricoquinha, não chegam a ponto de enterrar crianças vivas — mas boas não são.

— E a do Zeferininho da Estiva, que dava na cabeça dele com a colher de pau? — acrescentou Pedrinho.

— Sim — disse dona Benta. — Talvez a regra seja a madrasta má, embora as haja excelentes. Sei dois casos de madrastas boníssimas, quase como mães.

Tudo depende da criatura, e não do ato de ser mãe ou madrasta. Há mães tão perversas como as piores madrastas.

— Mas o povo assentou que as madrastas não prestam e não prestam mesmo — concluiu Emília. O coitado do povo sofre tanto que há de saber alguma coisa. Esse ponto da madrasta má o povo sabe. São más como caninanas — embora haja alguma degenerada que seja boa. Madrasta boa não é madrasta. Para ser madrasta, tem que ser uma bisca das completas. Eu, se pilhar alguma por aqui, furo-lhe os olhos.

 

Palavra de vida- junho/2010

junho 2nd, 2010 por Elson Gonçalves de Oliveira No comments »

“Quem buscar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará.” (Mt 10,39)

Quando lemos essa Palavra de Jesus, vêm em evidência dois estilos de vida: a vida terrena, que se constrói neste mundo, e a vida sobrenatural dada por Deus através de Jesus, vida que não se acaba com a morte e que ninguém nos poderá tirar.
Assim, diante da existência podemos adotar duas atitudes: apegar-nos à vida terrena, considerando-a como único bem – e, nesse caso, seremos levados a pensar em nós mesmos, em nossas coisas, em nossos apegos; vamos nos fechar em nosso casulo, afirmando somente o próprio eu, e como conclusão, no final encontraremos inevitavelmente apenas a morte. Ou podemos ter uma atitude diferente: acreditando que recebemos de Deus uma existência muito mais profunda e autêntica, teremos a coragem de viver de modo a merecermos esse dom a ponto de sabermos sacrificar nossa vida terrena pela outra vida.

“Quem buscar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará”.

Quando Jesus pronunciou essas palavras, referia-se ao martírio. Para seguirmos o Mestre e permanecermos fiéis ao Evangelho, nós, como todo cristão, devemos estar prontos a perder a nossa vida, morrendo – se for necessário – até mesmo de morte violenta. E assim, com a graça de Deus, nos será doada a vida verdadeira. Jesus foi o primeiro a “perder a sua vida” e recebeu-a glorificada. Ele já nos preveniu que não temêssemos “aqueles que matam o corpo, mas são incapazes de matar a alma”. (Mt 10,28)
Hoje ele nos diz:

“Quem buscar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará”.

Se você ler atentamente o Evangelho, verá que Jesus retoma esse conceito seis vezes. Isso demonstra a importância dele para Jesus e quanto ele o considera.
Mas, para Jesus, a exortação para perder a própria vida não é apenas um convite para enfrentarmos até mesmo o martírio. É uma lei fundamental da vida cristã.
É preciso estarmos prontos a renunciar a fazer de nós mesmos o ideal da nossa vida, a renunciarmos à própria independência egoísta. Se quisermos ser verdadeiros cristãos, devemos fazer de Cristo o centro de nossa existência. E o que Cristo quer de cada um de nós? O amor pelos outros. Se assumirmos o programa dele como nosso, certamente teremos perdido a nós mesmos e teremos encontrado a vida.
O fato de não viver para si mesmo não é, certamente, como se poderia imaginar, uma atitude de renúncia e de passividade. O empenho do cristão é sempre muito grande e o seu senso de responsabilidade é total.

“Quem buscar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará”.

Já nesta terra podemos fazer a experiência de que, no dom de nós mesmos, no amor vivido, cresce em nós a vida. Quando tivermos despendido o nosso dia a serviço dos outros, quando tivermos aprendido a transformar o trabalho cotidiano, talvez monótono e duro, em um gesto de amor, experimentaremos a alegria de nos sentirmos mais realizados.

“Quem buscar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará’.

Seguindo os mandamentos de Jesus, que estão todos centralizados no amor, encontraremos, depois desta breve existência, também a Vida Eterna.
Lembremos qual será o julgamento de Jesus no último dia. Ele dirá àqueles que estão à sua direita: “Vinde, benditos… pois eu estava com fome e me destes de comer; eu era forasteiro e me recebestes em casa; estava nu e me vestistes…” (Mt 25, 34ss)
Para que participemos da existência que não passa, Jesus olhará unicamente se amamos o próximo e vai considerar feito a si tudo o que tivermos feito ao próximo.

Como viveremos, então, esta Palavra? Como poderemos desde hoje perder a nossa vida para encontrá-la?
Preparando-nos para o grande e decisivo exame para o qual nascemos.
Olhemos ao nosso redor e preenchamos o nosso dia com atos de amor. Cristo se apresenta a nós na pessoa dos nossos filhos, da esposa, do marido, dos colegas de trabalho, de partido, de lazer, etc. Façamos o bem a todos. E não nos esqueçamos daqueles que passamos a conhecer diariamente por meio dos jornais, dos amigos ou da televisão… Façamos algo para todos, de acordo com as nossas possibilidades. E se acharmos que as nossas possibilidades se esgotaram, poderemos ainda rezar por eles. O que vale é o amor.

Chiara Lubich

A LINHA CRUZADA E O ESPIRRO

maio 19th, 2010 por Elson Gonçalves de Oliveira No comments »

         (Por Elson Gonçalves de Oliveira)

  

 Noite dessas, terminando o telejornal e já quase começando a novela das oito, lembrou-se de telefonar para um amigo a fim de passar-lhe um recado urgente do qual já estava esquecendo. Olhou no relógio e achou que dava tempo. Tem homem que não admite gostar de novela de jeito nenhum. Senta-se bem em frente ao televisor e não perde uma cena. Mas se alguém toca no assunto, principalmente quando está perto dos amigos, desconversa e chega até a falar mal de quem “perde tempo com essas besteiras”. Ele, que é um noveleiro assumido, acha que as novelas de televisão, embora explorem a realidade do cotidiano das pessoas, o que às vezes torna o quadro chocante, não são outra coisa senão um entretenimento a mais. E ponto final.

            Voltando ao assunto do telefonema, levou o fone ao ouvido para certificar-se de que havia linha e se surpreendeu com uma voz lá longe que dizia: “Alô!… Alôoo!… AAAlôoo!…”. Enfim, alguém atendeu: “Quem é?”. Ouvir conversa dos outros no telefone não é uma atitude correta, mas também não chega a ser assim uma falta tão grave. Permaneceu algum tempo na dúvida se devia continuar ouvindo ou se seria melhor desligar. O certo é que em meio ao deve-não-deve, escuta-não-escuta, a curiosidade falou mais alto: “É um amigo do Atílio, quero falar com ele, ele está?”, respondeu a voz insistente do outro lado da linha. “O Atílio está, vou chamá-lo”…

            — Alô, quem fala?

            — Oi, Atílio, amigão do peito! Estou ligando pra saber como vão as coisas aí na sua cidade, a nova administração, o prefeito que você ajudou a eleger.

            — É o Jorginho? Oi, gente boa, não estava reconhecendo a voz! Você quer saber do prefeito daqui? Começou pondo quente: chamou o povo, fez um baita mutirão na limpeza pública e deixou a cidade limpa.

            — Então foi um bom começo.

            — Foi nada. Depois disso trancou lá no gabinete e não recebe uma viva alma. Disse que enquanto não consertar os rolos que o outro deixou não vai fazer nada pra ninguém. E olha que rolo é o que não falta.

            — E o secretariado?

            — Uma lástima. Muito fraquinho. Sabe o… Pois é, é secretário de governo, vê se pode! Lembra do… Também virou secretário, acredita? E assim vai indo.

            — Mas então não mudou nada! Pra quem fez campanha pregando mudanças…

            — Mudou nada. Quer dizer, mudou de mão, mas o chicote no lombo do povo é o mesmo.

            — Aqui também a coisa tá feia, Atílio.

            — Mas o seu prefeito aí diz que é muito bem preparado.

            — Não adianta, pois o homem não pára na prefeitura, quer saber de cuidar só dos seus interesses!

            — Mas tem alguém que responde por ele, não tem?

            — Não serve. O povo votou foi no bosta e quer falar é com ele, ora!

            — Pelo menos ele montou um bom secretariado?

            — Que nada! A mesma panelinha de sempre.

            — Os buracos das ruas ele tampou, não tampou?

            — Tampou coisa nenhuma. São os mesmos também. Alega que vai esperar ter dinheiro pra fazer um serviço diferente do anterior que tampava os buracos do asfalto das ruas com cascalho. Mas me diga uma coisa, você sabe o que já estão falando da primeira-dama daí?

            — Não. O quê?

            — Coisa pesada. É o seguinte…

            Nessa hora, o clandestino, que se portava tão bem na escuta, vangloriando-se com aquela conversa, pois falar mal de político é sempre uma boa diversão, de repente foi acometido por uma vontade louca de espirrar. E foi inevitável. “Atchim!!!…” Com isso, só escutou um deles dizendo: “Saúde!”, ao que o outro respondeu: “Não fui eu que espirrei não!” E concluíram: “Então é linha cruzada!” E desligaram.

            O ouvinte curioso acabou ficando muito contrariado com a história, pois, além de perder a novela na televisão, não pôde saber o que estavam falando da mulher do prefeito.

RELACIONAMENTO FAMILIAR

maio 7th, 2010 por Elson Gonçalves de Oliveira No comments »

Inegavelmente, o nosso dia-a-dia é tomado por movimentações frenéticas e incessantes, tensões incontroláveis e preocupações de toda ordem. É a luta sem trégua pela sobrevivência. Sair cedo para o trabalho e regressar quase noite. Dia após dia. Dormir bem à noite para levantar no outro dia com disposição para a atividade rotineira. Estresse facilmente perceptível no final da jornada de trabalho. É a vida em sua versão mais natural. Às vezes nem damos conta disso.

Esse frenesi a que a vida moderna nos condiciona às vezes nos faz esquecer que somos membros de uma família, que temos pessoas queridas que nos esperam, que temos filhos que nos abraçam e nos dão afeto, que temos amigos que festejam conosco o nosso sucesso, enfim, que somos seres humanos. Repletos de imperfeições, de sonhos, de desejos, de más inclinações, mas feitos à imagem e semelhança do Criador.

Quando chegamos a nossa casa, esquecemos de bater a poeira dos sapatos antes de entrar. E levamos para dentro do nosso lar intensa carga de aflições, de contrariedades e de mau humor. E somos os primeiros a disseminar o desânimo e a desesperança entre os nossos entes queridos. A paz até então reinante no ambiente familiar começa a ceder lugar a discussões infundadas, a incompreensões indesejadas e a discórdias incontornáveis.

Nada disso aconteceria se os nossos atos se revestissem de uma dose mais acentuada de boas maneiras e de equilíbrio na tomada de atitudes. Não seria tão difícil formar o hábito de viver o momento presente, deixando que cada acontecimento tenha o seu instante certo para ser vivido. Isso poderia favorecer a redescoberta e o restabelecimento de valores elementares, mas, essenciais do relacionamento familiar, que ficaram esquecidos em algum compartimento da nossa mente informatizada.

Um beijo na esposa ao sair para o trabalho, outro ao regressar; uma palavra de carinho ao filho que se desmancha de orgulho diante das atitudes do pai-herói; um sorriso nos lábios e as mãos acenando, num gesto meigo e numa saudável demonstração de afeto; braços abertos para acolher o pequeno ser que vem correndo em disparada, em busca do abraço paternal; a atenção voltada para a filha que, feliz e irradiante, manifesta o seu desejo: “Vai com Deus, papai!”. São valores incomensuráveis que jamais poderão ser olvidados. São conquistas que por si só se encarregam de garantir um ambiente propício ao aprendizado do amor.

Há ainda as palavras mágicas que também têm a força de sedimentar qualquer relação humana, como por exemplo: “Me desculpe!”, “Me perdoe!”, “Não era bem isso que eu queria dizer!”, “Me dá licença!”… Não custa muito dirigir-se à esposa com palavras de candura: “Você está linda!”, “Eu te amo!”, “Feliz aniversário!”, “São pra você essas flores!”… Ao chegar de viagem: “Estava com saudades!”, “Foram dias longos, intermináveis!”… Frases de efeito? É possível! Contudo, não ditas aleatoriamente, mas utilizadas a serviço de um coração que ama.

A palavra, se bem dita, é sempre de fundamental importância para qualquer tipo de relacionamento humano. Colocada com prudência, de maneira educada e respeitosa, gera paz, contentamento e bem-estar, além de ser facilmente assimilada. Se mal dita, dirigida de forma deselegante, desrespeitosa e ríspida, pode provocar uma tempestade no ambiente em que se dá o relacionamento, porque reflete o mal que se acha encalacrado no coração de quem a profere, sugerindo mil e um questionamentos e provocando impasse e desarmonia.

Não diferentes são os gestos e as expressões externas com os quais nos comunicamos com as pessoas. Através deles transmitimos aquilo que passa em nossa alma, em nossa mente e em nosso coração. Tanto as manifestações que refletem o bem quanto os sentimentos que traduzem o mal. Um sorriso pode representar ironia, falsidade, satisfação ou delicadeza. Um olhar pode traduzir desprezo, sinceridade, ódio ou meiguice. Lágrimas podem significar sofrimento, dor, emoção ou até mesmo alegria. Com as mãos a pessoa pode praticar atos obscenos, mas pode também benzer-se, louvar e glorificar o Pai.

É num ambiente de paz e de concórdia que se exercitam e se aprendem com mais facilidade as lições do amor: amor fraternal, amor conjugal, amor paterno-maternal, amor filial. É nesse mesmo clima que se constroem o entendimento e o bom relacionamento do casal, que se formam e se educam os filhos. Enfim, nesse modelo de família é mais fácil o ser humano alcançar a tão sonhada felicidade. A frase é antiga e não é nossa: “Ninguém ama aquilo que não conhece”.

Não é difícil perceber que tudo depende excepcionalmente de nós. O primeiro passo deve ser nosso, assim como o primeiro sorriso, o primeiro gesto de bondade, o primeiro olhar amigo e cativante, a primeira manifestação de amizade, a primeira palavra de carinho, o primeiro ato de amor, o primeiro pedido de desculpas. E acima de tudo, o primeiro a compreender e o primeiro a perdoar. Fácil? No início certamente não, mas a prática é que forma o hábito. E quando os frutos positivos dessa aventura – saudável aventura – começarem a aparecer, a satisfação da alma será indício forte de que vale a pena.

Elson Gonçalves de Oliveira é advogado e escritor, e integrante da Pastoral da Família (e-mail: elson.go@hotmail.com)

O LEITE DA FAZENDA QUIRI-QUIRI TEM ÁGUA E LAMBARI

maio 7th, 2010 por Elson Gonçalves de Oliveira No comments »

Um fazendeiro muito brincalhão, que fornecia leite diretamente ao consumidor da cidade, diariamente, de casa em casa, motivado pelas gozações acerca do possível adicionamento de água de córrego ao substancioso líquido, mandou escrever em sua camioneta velha, com letras bem visíveis: “O leite da Fazenda Quiri-Quiri tem água e lambari”.

Foi o modo que encontrou para se comunicar através do humor. Tratava-se de homem sério, direito, que jamais se metia em expedientes mesquinhos para ganhar a vida. Mesmo porque não precisava disso.

Respeitoso com todos, Zequinha – nome pelo qual era conhecido – vivia rodeado de crianças as quais o assediavam por conta das balas que ele distribuía graciosamente a todas elas.

Não tinha pressa. Era inimigo da afobação. Levantava cinco horas e, enquanto fechava as vacas, a patroa coava o café amargoso. Sozinho tirava o leite, apesar dos seus mais de sessenta janeiros. Agasalhava a bóia quentinha na barriga e rumava para a cidade, distante uns vinte quilômetros, a fim de comercializar o produto. Chegava pelas dez e meia, onze horas, buzinando de casa em casa e arrumando boas e inocentes brincadeiras com suas freguesas.

Sua camioneta, de cor azul desbotado, com carroceria adaptada e tocada a gás, parecia fabricada logo depois da segunda guerra mundial. “Peça de museu” – ironizavam seus amigos. Não sabia o que era andar em alta velocidade. Podia pisar fundo no acelerador que a danada não obedecia. Mal saía do lugar. Trinta, até quarenta, era sua velocidade máxima.

Não tinha importância. Pressa para quê? Feita a entrega, Zequinha regressava ao sítio para apartar as vacas, com vistas aos compromissos rotineiros do dia seguinte.

Porém, alguma coisa do mal se achou no direito de atravessar os caminhos traçados para Zequinha. Numa dessas manhãs de entregas, dirigindo a teimosa condução, na velocidade de sempre, acabou atropelando uma criança.

Nove anos contava o menino. Fora encontrado no caminho percorrido pelo entregador deitado de bruços sobre o cascalho da rua, sangrando pelo nariz, chorando choro triste. Morreu no hospital dias depois.

Teria sido Zequinha o autor do lamentável fato? O garoto pegou carona clandestinamente e caiu com o nariz no chão? Ou se machucou de algum outro modo que ninguém soube contar? Testemunhas não houve… O certo é que o leiteiro nada viu. Soube do ocorrido mais tarde. Não quis acreditar no que lhe contaram. Não se desesperou, mas foi tomado por uma tristeza sem fim.

Quem poderia imaginar que Zequinha, mais parecido a uma lesma, quando estava no volante, pudesse atropelar uma pessoa com aquela forreca velha? Era inacreditável.

Na justiça, Zequinha foi absolvido. Falta de prova. Para ele, homem reto, que criou uma família de doze filhos com seu próprio trabalho, a absolvição não foi suficiente para acalmar a sua consciência. Atormentava-o a dúvida se de fato atropelara um inocente que provavelmente subira na traseira de seu veículo sem que ele tivesse notado. Consolava-o, no entanto, a certeza de que jamais agiu com imprudência, culpa ou má-fé.

À família do menor vitimado ficou a dor da fatalidade. Coisas assim que aqui na Terra, por mais que se procure, não se consegue encontrar explicação.

E as ruas da cidade nunca mais ouviram o “Fom!… Fom!… Fom!…” da buzina do leiteiro, nem sua voz conclamando “Dona Maria” para trazer a vasilha do leite, “leite quentinho, baratinho, sem água e limpinho”.

Tempos depois, depois de muitos depois, Zequinha tombou sem vida, vítima de acidente na estrada de sempre, na camioneta tocada a gás, que jamais passava de quarenta quilômetros por hora.

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Por Elson Gonçalves de Oliveira